Ao longo da minha trajetória profissional na educação, psicopedagogia, psicologia clínica, neuropsicologia e psicologia hospitalar, fui percebendo que compreender apenas o sintoma raramente era suficiente para compreender a pessoa. Em diferentes contextos clínicos, observava crianças, adolescentes e adultos apresentando ansiedade, tristeza, irritabilidade, dificuldades de aprendizagem, comportamentos desafiadores, sofrimento emocional ou dificuldades nos relacionamentos. Entretanto, quanto mais aprofundava a escuta clínica, mais percebia que por trás de cada sintoma existia uma história, uma trajetória de vida, um conjunto de experiências relacionais e emocionais que precisavam ser compreendidos.
Essa busca por um olhar mais amplo encontrei respaldo científico em diferentes áreas do conhecimento, especialmente na Teoria do Apego, nas Neurociências e na Terapia do Esquema. Essas abordagens, embora possuam origens distintas, convergem em um ponto fundamental: o desenvolvimento humano acontece dentro das relações, e os vínculos afetivos exercem papel decisivo na construção da saúde emocional ao longo da vida (Bowlby, 1981, 2015; Abreu, 2019; Mendes, 2021).
John Bowlby (1981) revolucionou a compreensão do desenvolvimento infantil ao propor que a necessidade de vínculo não é secundária nem derivada apenas da satisfação de necessidades fisiológicas. Para o autor, os seres humanos nascem biologicamente preparados para buscar proximidade, proteção e segurança junto às figuras cuidadoras. Posteriormente, suas pesquisas sobre os laços afetivos aprofundaram a compreensão acerca dos impactos da separação, da perda e das rupturas relacionais no desenvolvimento emocional (Bowlby, 2015).
A partir das contribuições de Bowlby e Mary Ainsworth, a Teoria do Apego passou a demonstrar que as experiências relacionais precoces influenciam significativamente a forma como a criança desenvolve suas estratégias de regulação emocional, sua percepção de segurança e suas expectativas em relação aos relacionamentos futuros (Abreu, 2019). Esses modelos internos de funcionamento tendem a acompanhar o indivíduo ao longo do desenvolvimento, influenciando relacionamentos familiares, amizades, vínculos amorosos e a própria relação consigo mesmo.
Dentro dessa perspectiva, compreendo que os sintomas raramente surgem de forma isolada. Muitas vezes, eles representam tentativas de adaptação diante de necessidades emocionais básicas que não foram suficientemente atendidas. É exatamente nesse ponto que a Terapia do Esquema oferece uma importante ampliação do olhar clínico. Ao considerar as necessidades emocionais fundamentais da infância,como segurança, conexão, autonomia, validação emocional, espontaneidade e limites saudáveis, a Terapia do Esquema permite compreender como experiências precoces podem contribuir para a construção de padrões emocionais e comportamentais que permanecem ativos ao longo da vida.
Essa compreensão também encontra apoio na obra de Patrícia Nolêto (2021), que destaca a importância de compreendermos as necessidades emocionais da criança sob a perspectiva da Teoria do Esquema. Em uma passagem particularmente sensível, a autora afirma:
“Informação e conhecimento não nos faz ter o controle de tudo e não nos garante que nunca mais vamos errar. Mas conhecer nos dá mais chances de acertar e nos ajuda a construir novos caminhos” (Nolêto, 2021, p. 19).
Essa reflexão possui profunda relevância para pais, cuidadores e profissionais. Compreender o desenvolvimento emocional não significa alcançar uma parentalidade perfeita ou eliminar completamente os desafios do desenvolvimento humano. Significa, sobretudo, desenvolver maior consciência sobre as necessidades emocionais da criança e sobre as formas pelas quais podemos construir relações mais seguras, sensíveis e protetivas.
As Neurociências reforçam ainda mais essa compreensão ao demonstrar que as experiências relacionais influenciam diretamente o desenvolvimento cerebral. Sue Gerhardt (2017) descreve como as interações afetivas precoces participam ativamente da construção das estruturas neurais responsáveis pela regulação emocional, pelo manejo do estresse e pela capacidade de estabelecer vínculos seguros. Sob essa perspectiva, o cérebro não se desenvolve isoladamente; ele se desenvolve dentro das relações.
Essa visão modifica profundamente a forma como compreendemos o sofrimento emocional. Muitas vezes, comportamentos considerados inadequados, desafiadores ou problemáticos podem ser entendidos como adaptações desenvolvidas diante de contextos de insegurança, imprevisibilidade ou sofrimento. A criança não reage apenas ao que acontece objetivamente ao seu redor, mas também à forma como seu sistema nervoso interpreta essas experiências.
Na prática clínica, essa compreensão é fundamental. Antes de perguntar apenas “qual é o sintoma?”, procuro compreender “qual é a história por trás desse sintoma?”. Antes de focar exclusivamente no comportamento observável, busco compreender os vínculos, as experiências emocionais, o contexto familiar, o funcionamento do sistema nervoso e as necessidades emocionais envolvidas.
Autores contemporâneos como Cristiano Nabuco de Abreu (2019), Marco Aurélio Mendes (2021) e Susan Johnson (2025) ampliaram significativamente essa compreensão ao demonstrarem que o apego permanece influenciando a vida emocional muito além da infância. Os vínculos afetivos continuam sendo organizadores centrais da experiência humana ao longo de todo o ciclo vital. A forma como buscamos proximidade, reagimos à rejeição, lidamos com conflitos, expressamos emoções e construímos intimidade está profundamente relacionada às experiências de apego vividas ao longo da vida.
Susan Johnson (2025), ao aplicar os princípios da Teoria do Apego à prática clínica por meio da Terapia Focada nas Emoções, destaca que a segurança emocional constitui uma das necessidades humanas mais fundamentais. Quando as relações oferecem previsibilidade, acolhimento e responsividade emocional, tornam-se importantes fontes de regulação emocional e desenvolvimento psicológico.
Essa perspectiva também fundamenta a importância da orientação parental. Muitas vezes, os pais chegam ao consultório procurando estratégias para modificar comportamentos específicos dos filhos. Entretanto, frequentemente o trabalho clínico exige um olhar mais amplo, voltado para a qualidade das interações familiares, para a comunicação emocional e para a construção de um ambiente relacional mais seguro. Não se trata apenas de corrigir comportamentos, mas de fortalecer vínculos.
É justamente nesse ponto que a integração entre Neurociência, Teoria do Apego e Terapia do Esquema se torna tão valiosa. Enquanto a Neurociência ajuda a compreender como experiências relacionais influenciam o desenvolvimento cerebral e a regulação emocional, a Teoria do Apego permite compreender a construção dos vínculos e dos modelos internos de relacionamento. A Terapia do Esquema, por sua vez, oferece ferramentas para identificar necessidades emocionais não atendidas, padrões de funcionamento e possibilidades de reparação emocional.
Assim, o sintoma deixa de ser visto apenas como um problema a ser eliminado e passa a ser compreendido como uma linguagem que comunica necessidades, histórias, experiências e tentativas de adaptação. Mais do que tratar sintomas, esse modelo de intervenção busca compreender a pessoa em sua integralidade, reconhecendo sua história, seus vínculos, seus recursos internos e suas potencialidades.
Acredito que compreender a história emocional de uma pessoa é fundamental para compreender seus sintomas, suas dificuldades, seus recursos internos e suas potencialidades. É por isso que minha atuação clínica procura integrar conhecimento científico, experiência clínica e cuidado humanizado, promovendo não apenas a redução do sofrimento, mas também a construção de segurança emocional, pertencimento, desenvolvimento saudável e novas possibilidades de vida.
Referências
Abreu, C. N. de. (2019). Teoria do apego: Fundamentos, pesquisas e implicações clínicas. Artesã Editora.
Bowlby, J. (1981). Cuidados maternos e saúde mental (M. Fry, Org.; V. L. B. de Souza & I. Rizzini, Trads.). Martins Fontes.
Bowlby, J. (2015). Formação e rompimento dos laços afetivos (A. Cabral, Trad.; 5. ed.). Martins Fontes.
Gerhardt, S. (2017). Por que o amor é importante: Como o afeto molda o cérebro do bebê (2. ed.). Artmed.
Johnson, S. M. (2025). Teoria do apego na prática: Terapia focada nas emoções com indivíduos, casais e famílias (D. Vieira, Trad.). Artmed.
Mendes, M. A. (2021). A clínica do apego: Fundamentos para uma psicoterapia afetiva, relacional e experiencial. Sinopsys Editora.
Nolêto, P. (2021). Filhos em construção: As necessidades da criança pela teoria do esquema. Literare Books International.
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