segunda-feira

Jogo Bicho Zangados na Psicologia Clínica com uso estruturado com finalidades terapêuticas.

 O uso do jogo Bichos Zangados na Psicologia Infantil e Juvenil: contribuições da TCC, da Terapia do Esquema e da Neurociência





A infância é um período fundamental para o desenvolvimento das habilidades de autorregulação emocional, controle inibitório e aprendizagem social. Crianças que apresentam impulsividade, baixa tolerância à frustração, irritabilidade intensa e dificuldades para reconhecer e expressar emoções podem apresentar prejuízos no ambiente familiar, escolar e nas relações interpessoais. Nesse contexto, o brincar constitui uma importante ferramenta terapêutica, pois representa a linguagem natural da criança e favorece a expressão de sentimentos, pensamentos e comportamentos que ainda não conseguem ser plenamente verbalizados.


O jogo Bichos Zangados é um jogo comercial que pode ser utilizado como recurso lúdico-terapêutico em contextos clínicos, escolares e familiares. Quando mediado pelo profissional, favorece o desenvolvimento da consciência emocional, do autocontrole, do freio inibitório e da resolução de problemas, transformando a experiência do brincar em uma oportunidade de aprendizagem socioemocional.


Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), os comportamentos impulsivos e as reações intensas de raiva são compreendidos a partir da interação entre pensamentos, emoções e comportamentos. Muitas crianças apresentam respostas automáticas diante da frustração, reagindo antes de conseguirem refletir sobre as consequências de seus atos. Nesse sentido, a utilização de jogos permite trabalhar, de maneira concreta e experiencial, a identificação das emoções, a tolerância à espera, a resolução de problemas e a construção de estratégias mais adaptativas para lidar com situações difíceis (Young et al., 2008).


Sob a perspectiva da Terapia do Esquema para crianças e adolescentes, comportamentos explosivos e impulsivos podem refletir a ativação dos modos Criança Zangada e Criança Impulsiva. Essas respostas frequentemente representam tentativas de lidar com necessidades emocionais básicas que não foram suficientemente atendidas, como segurança, acolhimento, validação emocional e limites adequados. O trabalho terapêutico busca proporcionar experiências emocionais corretivas por meio da validação, do estabelecimento de limites saudáveis e do fortalecimento gradual do Modo Adulto Saudável, adaptado à realidade do desenvolvimento infantil (Reis, 2019).


A neurociência do desenvolvimento oferece importantes contribuições para a compreensão dessas dificuldades. Daniel Siegel (2015) destaca que as funções executivas, como controle inibitório, planejamento, flexibilidade cognitiva e regulação emocional, dependem do amadurecimento do córtex pré-frontal. Embora esse processo se inicie na infância, o desenvolvimento cerebral ocorre de maneira gradual e prolongada, estendendo-se até o início da vida adulta. Atualmente, estudos em neurodesenvolvimento apontam que a maturação funcional completa dessas regiões pode ocorrer por volta dos 25 anos. Isso significa que crianças e adolescentes ainda não possuem plenamente desenvolvida a capacidade de regular emoções e impulsos de maneira independente.


Dessa forma, a criança não nasce sabendo se acalmar, esperar, tolerar frustrações ou demonstrar empatia. Essas habilidades são aprendidas nas relações. Bruce Perry e Oprah Winfrey (2022) enfatizam que o cérebro é moldado pelas experiências repetidas e pelas relações de cuidado. Antes de desenvolver a autorregulação, a criança necessita da co-regulação proporcionada pelos adultos significativos. Pais, cuidadores, professores e terapeutas funcionam como reguladores externos, emprestando sua calma, sua capacidade de reflexão e sua empatia para que, progressivamente, essas habilidades sejam internalizadas.


Daniel Siegel (2015) descreve esse processo como “integração cerebral”, ressaltando que a repetição de experiências seguras e responsivas fortalece os circuitos neurais envolvidos na regulação emocional. Em outras palavras, a criança aprende empatia sendo tratada com empatia, aprende calma sendo acalmada e aprende autocontrole através das experiências repetidas de co-regulação. Não se trata apenas de ensinar regras ou impor limites, mas de oferecer experiências emocionais que promovam a maturação das redes neurais relacionadas às funções executivas.


Nesse contexto, recursos lúdicos como o jogo Bichos Zangados permitem criar experiências seguras e estruturadas para que a criança possa reconhecer emoções, tolerar a frustração, pensar antes de agir e experimentar novas formas de lidar com sentimentos intensos. Durante a brincadeira, o psicólogo atua como um facilitador desse processo, validando emoções, modelando respostas mais adaptativas e favorecendo o desenvolvimento do autocontrole e das habilidades sociais.


Assim, mais do que um simples passatempo, os jogos comerciais utilizados com finalidade terapêutica tornam-se instrumentos importantes para o desenvolvimento emocional, cognitivo e relacional. Sob a ótica da Terapia Cognitivo-Comportamental, da Terapia do Esquema e da Neurociência do Desenvolvimento, o brincar constitui um espaço privilegiado para que a criança construa gradualmente as capacidades que, no futuro, permitirão uma maior autonomia emocional e social.


Referências


Perry, B. D., & Winfrey, O. (2022). O que aconteceu com você? Conversas sobre trauma, resiliência e cura. Sextante.


Reis, A. H. (Org.). (2019). Terapia do esquema com crianças e adolescentes: Do modelo teórico à prática clínica. Episteme.


Siegel, D. J., & Bryson, T. P. (2015). O cérebro da criança: 12 estratégias revolucionárias para nutrir a mente em desenvolvimento do seu filho e ajudar sua família a prosperar. nVersos.


Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Artmed.

ORIENTAÇÃO PARENTAL

 


A importância da orientação parental na clínica infantojuvenil: um olhar integrado ao sintoma


Na psicologia clínica infantojuvenil, compreender uma criança ou um adolescente significa ir além daquilo que aparece na forma de sintomas. Ansiedade, irritabilidade, dificuldades escolares, desregulação emocional e problemas comportamentais são sinais importantes, mas raramente representam o ponto de partida do sofrimento. Por trás deles, existe uma história, relações e necessidades emocionais que precisam ser consideradas.


Em Aproxime-se dos seus filhos, Gordon Neufeld e Gabor Maté (2026) destacam que a necessidade mais importante da criança é estar emocionalmente vinculada aos seus cuidadores. Os autores mostram que o desenvolvimento saudável depende da qualidade desses vínculos e que os pais precisam ser uma base segura e uma referência emocional mais significativa do que as influências do grupo de pares. Essa ideia não se refere ao controle, mas à importância da conexão, da presença e do pertencimento.


Ao longo de sua obra, Gabor Maté tem chamado atenção para a necessidade de compreender o contexto antes de se buscar apenas um diagnóstico. Em vez de perguntar apenas “o que a criança tem?”, torna-se fundamental perguntar “o que aconteceu?”, “em que ambiente ela está inserida?” e “quais necessidades emocionais podem não estar sendo atendidas?”. Para Maté, muitos sintomas representam adaptações a experiências vividas e não podem ser entendidos isoladamente de sua história (Maté & Neufeld, 2026).


Nesse sentido, a orientação parental ocupa um papel central na clínica psicológica. Ela não busca culpados, mas promove compreensão. Pais e cuidadores educam a partir das experiências que receberam ao longo da vida, e muitas vezes padrões aprendidos na infância, estilos parentais, crenças familiares e dificuldades emocionais influenciam a maneira como respondem às necessidades dos filhos.


Além disso, o desenvolvimento infantil é influenciado por múltiplos contextos. Família, escola, amizades, cultura e experiências de vida fazem parte da construção emocional da criança. Por isso, o sintoma precisa ser compreendido de maneira contextualizada.


Foi a partir dessa compreensão que surgiu a metáfora do Arquipélago de Si, apresentada no Congresso Brasileiro de Psicologia Hospitalar, em setembro de 2025, em Maceió, Alagoas. Assim como um arquipélago é formado por várias ilhas, cada pessoa também é constituída por diferentes dimensões interligadas.


Nessa metáfora, o olhar clínico passeia pelas ilhas do temperamento, das necessidades emocionais básicas, dos estilos parentais, dos ambientes vividos, dos relacionamentos e do desenvolvimento, para então compreender a ilha dos sintomas. O sofrimento emocional deixa de ser visto como algo isolado e passa a ser entendido dentro de uma história de vida.


Esse olhar integrado encontra respaldo nas contribuições da Teoria do Apego, da Psicologia do Desenvolvimento, da Neurociência e da Terapia do Esquema. O objetivo não é apenas reduzir sintomas, mas favorecer vínculos seguros, promover regulação emocional e atender necessidades emocionais que, muitas vezes, ficaram desassistidas.


Como afirmam Neufeld e Maté (2026), o desenvolvimento saudável não acontece apenas por meio de técnicas educativas, mas principalmente através dos relacionamentos. Por isso, na clínica infantojuvenil, cuidar da criança também significa cuidar das relações que a sustentam.


Referência

Neufeld, G., & Maté, G. (2026). Aproxime-se dos seus filhos: Por que os pais precisam ser mais importantes que os amigos (C. Simmer, Trad.). Sextante. (Trabalho original publicado em 2004).


Agendamento:

https://psikatiaguerra.com.br/



Publicação no Apego Inseguro:

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2024.v14n2-998





Intervenção Psikatiaguerra- Psicóloga Kátia Baptista Guerra- CRP 02/22746




O sintoma não é o começo da história

Ao longo dos anos, fui percebendo que as pessoas raramente chegam ao consultório trazendo aquilo que realmente precisam. Geralmente chegam pela ansiedade, pelas dificuldades emocionais, pelos conflitos familiares, pela tristeza, pelos sintomas físicos ou pelas preocupações com os filhos. Mas, quase sempre, existe uma história maior por trás daquilo que aparece.

Talvez por ter vivido muitos anos na educação antes da Psicologia, aprendi a olhar para o desenvolvimento humano de uma forma mais ampla. A experiência na coordenação pedagógica, na docência e, posteriormente, na Psicologia Clínica e Hospitalar, fez nascer em mim a necessidade de compreender a pessoa em sua totalidade.

Foi assim que surgiu a metáfora do Arquipélago de Si, apresentada no Congresso Brasileiro de Psicologia Hospitalar, em Maceió, em setembro de 2025. Essa metáfora nasceu da ideia de que ninguém é formado por uma única história. Somos resultado de muitos encontros, experiências, necessidades, vínculos e formas de adaptação.

Na prática clínica, isso significa que não procuro apenas entender “o que a pessoa tem”, mas principalmente “como ela se desenvolveu”. Procuro compreender suas características individuais, as experiências emocionais mais importantes, os vínculos estabelecidos ao longo da vida, os ambientes em que cresceu e a maneira como aprendeu a lidar com o sofrimento.

Por isso, meu trabalho é fundamentado na Terapia do Esquema, na Teoria do Apego, nas Neurociências e na Terapia Cognitivo-Comportamental. Essas abordagens me ajudam a construir um raciocínio clínico mais integrado, respeitando a singularidade de cada pessoa.

A experiência como psicóloga hospitalar na enfermaria pediátrica reforçou ainda mais essa compreensão. Ao acompanhar crianças e adolescentes em sofrimento, percebi que saúde emocional, vínculos e regulação do sistema nervoso caminham juntos. Essa vivência, inclusive, contribuiu para a publicação de estudos sobre intervenção psicológica em casos de dor crônica idiopática na pediatria.

Hoje, acredito que cuidar da saúde mental é muito mais do que combater sintomas. É oferecer espaço para que a pessoa compreenda sua história, encontre novos significados e desenvolva recursos mais saudáveis para seguir a vida.

Porque, no final, não se trata apenas de aliviar dores.

Trata-se de ajudar cada pessoa a construir uma relação mais segura consigo mesma, com os outros e com a própria história.




Intervenção no Apego Inseguro: Olhar Integrado ao sintoma e a trajetória profissional.




Sou Kátia Baptista Guerra, psicóloga clínica e hospitalar, neuropsicóloga, e venho construindo, ao longo da minha trajetória, um olhar que busca compreender a pessoa para além do sintoma. 

Minha prática clínica é fundamentada na.        Terapia do Esquema, na Teoria do Apego, nas Neurociências,       na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e na Psicologia do Desenvolvimento.


Quando uma criança, adolescente ou adulto chega ao consultório trazendo ansiedade, depressão, dificuldades emocionais, problemas comportamentais ou sofrimento psicológico, eu não começo pelo sintoma. Eu começo pela pessoa.


Foi dessa forma que nasceu a metáfora do Arquipélago de Si, que tive a oportunidade de apresentar no Congresso Brasileiro de Psicologia Hospitalar, realizado em setembro de 2025, em Maceió. Gosto de imaginar que cada pessoa é um arquipélago formado por várias ilhas. O sintoma é apenas uma delas. Para compreendê-lo, precisamos conhecer as demais ilhas que compõem a história emocional de cada indivíduo.


A primeira é a Ilha do Temperamento. Cada criança nasce com características próprias. Algumas são mais sensíveis, outras mais expansivas, algumas mais cautelosas ou mais intensas. Os estudos sobre personalidade, especialmente o modelo Big Five, mostram que traços como neuroticismo, extroversão, amabilidade, conscienciosidade e abertura influenciam a forma como cada pessoa percebe e responde ao mundo. O temperamento não determina o destino de ninguém, mas representa um importante ponto de partida para compreendermos vulnerabilidades e potencialidades.


Em seguida, encontramos a Ilha das Necessidades Emocionais Básicas. Todo ser humano precisa sentir-se amado, seguro, valorizado, pertencente e respeitado. Precisa também desenvolver autonomia, experimentar limites saudáveis e sentir-se livre para explorar o mundo. Quando essas necessidades são suficientemente atendidas, desenvolvemos recursos internos mais saudáveis. Quando não são atendidas, podem surgir dores emocionais que, mais tarde, se manifestam na forma de sintomas.


Outra ilha importante é a dos Estilos Parentais. Nenhuma criança se desenvolve sozinha. Os cuidadores exercem grande influência sobre a construção emocional dos filhos. Pais excessivamente rígidos, permissivos, superprotetores ou emocionalmente indisponíveis podem, muitas vezes sem intenção, contribuir para dificuldades futuras. Da mesma forma, ambientes suficientemente bons, com acolhimento, segurança e limites saudáveis, favorecem o desenvolvimento de vínculos seguros. Por isso, quando trabalho com crianças e adolescentes, a orientação parental é parte fundamental do processo terapêutico.


Existe também a Ilha dos Ambientes Vividos. A família, a escola, a comunidade, a cultura e as experiências sociais participam diretamente do desenvolvimento emocional. A criança cresce dentro de sistemas e, portanto, não é possível compreender o sofrimento sem considerar os contextos nos quais ela está inserida.


A Ilha dos Relacionamentos e do Desenvolvimento nos mostra que as relações humanas são grandes organizadoras da saúde mental. Nossa história de vínculos influencia a forma como nos relacionamos conosco, com os outros e com o mundo. Por isso, compreender o desenvolvimento humano e as diferentes etapas da vida é essencial para uma intervenção verdadeiramente individualizada.


E, então, chegamos à ilha que geralmente traz as pessoas para a psicoterapia: a Ilha dos Sintomas. Ansiedade, depressão, desregulação emocional, dificuldades escolares, problemas de comportamento ou sofrimento emocional não representam, para mim, o ponto de partida. São sinais. São formas que a mente e o corpo encontram para comunicar que algo precisa ser compreendido.


Por isso, meu olhar é um olhar integrado ao sintoma. Eu não pergunto apenas: “Qual é o problema?”. Procuro compreender: “Qual é a história por trás desse sofrimento?”, “Quais necessidades emocionais não foram atendidas?”, “Como essa pessoa aprendeu a se proteger?” e “O que esse sintoma está tentando comunicar?”.


Minha forma de intervir é baseada na intervenção no apego inseguro, na reparentalização limitada, na orientação parental, na regulação emocional, na psicoeducação e no trabalho multiprofissional. Mais do que reduzir sintomas, busco promover desenvolvimento emocional e favorecer a construção do Adulto Saudável.


Esse olhar não surgiu de forma rápida. É resultado de uma trajetória construída ao longo de muitos anos. Minha primeira formação foi em Pedagogia, ainda na década de 1990. Durante mais de vinte anos atuei na área da educação, exercendo funções de coordenação pedagógica e docência, desde a Educação Infantil até o Ensino Superior. Foi nesse percurso que os estudos sobre desenvolvimento humano e vínculos começaram a despertar meu interesse.


Em 2015, iniciei minha formação em Psicologia. Posteriormente vieram as especializações em Psicologia Clínica e Hospitalar, Neuropsicologia, Neurociências, Parentalidade Positiva, Disciplina Positiva e Terapia do Esquema, incluindo formação pela Wainer Psicologia e treinamento avançada em Terapia do Esquema no Modelo Alemão (STCA).


Entre 2021 e 2023, tive a oportunidade de atuar como psicóloga hospitalar em um hospital público federal, na unidade de enfermaria de pediatria. Essa experiência transformou profundamente meu raciocínio clínico. Foi nesse contexto que pude observar como as histórias de apego, a regulação do sistema nervoso e o sofrimento emocional estavam intimamente relacionados às manifestações físicas e emocionais das crianças e adolescentes.


Dessa experiência nasceu também a publicação de dois casos clínicos sobre intervenção psicológica na dor crônica idiopática em pediatria. Esses estudos fortaleceram ainda mais minha compreensão sobre a importância da Teoria do Apego dentro do raciocínio clínico e sobre como a promoção de vínculos seguros pode contribuir para a saúde física e emocional.


Ao longo da minha trajetória, aprendi que pessoas não são diagnósticos, são: história, relações, necessidades emocionais e experiências.


E é justamente por isso que acredito que compreender o Arquipélago de Si nos permite olhar além do sintoma. Porque, quando compreendemos a história emocional de uma pessoa, conseguimos enxergá-la em sua totalidade. E é nesse encontro entre história, vínculos, neurociência, cuidado e desenvolvimento humano que acredito que nasce uma intervenção mais humana, mais profunda e verdadeiramente personalizada.


Kátia Baptista Guerra

Psicóloga Clínica e Hospitalar . Neuropsicóloga .CRP 02/22746

Terapia do Esquema . Teoria do Apego . Neurociências .TCC

Recife-Pernambuco, Brasil.

quinta-feira

Separação dos Pais na Primeira Infância: Como Ajudar uma Criança a se Sentir Segura em Meio às Mudanças

 


A separação dos pais é uma decisão dos adultos. A criança não tem culpa pelo que aconteceu e continua precisando sentir que é amada, protegida e importante para ambos. Embora a reorganização da família seja uma realidade vivida por muitas pessoas, é importante lembrar que as mudanças trazidas pela separação são percebidas intensamente pelas crianças, principalmente na primeira infância.


Nessa fase do desenvolvimento, elas ainda não possuem recursos emocionais e cognitivos suficientes para compreender completamente o que está acontecendo. Muitas vezes, não conseguem colocar em palavras aquilo que sentem e acabam expressando suas emoções através do comportamento, do brincar, do sono, da alimentação, da irritabilidade ou da necessidade maior de proximidade com os adultos.


Por isso, a criança não precisa conhecer detalhes dos conflitos do casal. Ela precisa de segurança, previsibilidade, rotina, cuidado emocional e da presença de adultos capazes de acolher seus sentimentos sem colocá-la no meio das dificuldades da relação conjugal.


Algumas atitudes podem ajudar significativamente nesse período de adaptação. Manter uma rotina estável sempre que possível, permitir que a criança fale da saudade, validar sentimentos como tristeza, medo, confusão ou raiva e explicar as mudanças com uma linguagem simples e adequada à idade são medidas que favorecem a segurança emocional.


Também é importante evitar falar mal do outro genitor na frente da criança ou colocá-la em uma posição de escolher lados. A criança precisa sentir que continua sendo filha e que não é responsável pelos conflitos dos adultos. Além disso, oferecer colo, escuta, presença e avisar com antecedência sobre visitas, mudanças e combinações contribui para reduzir a ansiedade e fortalecer o sentimento de previsibilidade.


Em alguns momentos, os comportamentos considerados difíceis podem ser, na verdade, pedidos de ajuda emocional. Regressões, irritabilidade, choro frequente, insegurança, dificuldades para dormir ou maior necessidade de proximidade podem representar tentativas da criança de comunicar aquilo que ainda não consegue verbalizar.


Na clínica psicológica, esses sentimentos podem ser trabalhados por meio do brincar, das histórias, dos desenhos, dos bonecos, das emoções e dos recursos simbólicos. O brincar é a linguagem natural da infância, e através dele a criança consegue expressar e organizar experiências que ainda não consegue elaborar apenas pela fala.


O objetivo do acompanhamento psicológico não é fazer a criança deixar de sentir saudade ou tristeza, mas ajudá-la a compreender que esses sentimentos são legítimos e fazem parte da experiência humana. A criança pode amar os dois pais, sentir falta de um deles, experimentar tristeza, raiva ou confusão e, ainda assim, continuar se desenvolvendo com segurança emocional.


A separação dos pais não precisa destruir a sensação de segurança da criança. O que mais protege seu desenvolvimento é a forma como os adultos conduzem esse processo. Quando existe respeito, responsabilidade afetiva, comunicação adequada e cuidado emocional, é possível construir novas formas de convivência e permitir que a criança continue sendo, acima de tudo, criança.


Kátia  Baptista Guerra

Psicóloga Clínica e Hospitalar | Neuropsicóloga

CRP 02/22746

Instagram: @psikatiaguerra

Link: Publicação sobre a importância do Apego Seguro


https://residenciapediatrica.com.br/article/1516/intervencao-no-apego-inseguro-para-o-tratamento-da-dor-cronica-idiopatica-em-pediatria







terça-feira

O VALOR DO HOJE



Vivemos entre lembranças do que passou e expectativas sobre o que ainda virá. Muitas vezes ficamos presos ao ontem, revivendo dores, arrependimentos ou saudades. Em outros momentos, corremos para o amanhã, imaginando cenários, antecipando preocupações ou esperando que algo aconteça para então sermos felizes.


Mas a vida acontece no hoje. É no presente que construímos novas histórias, fortalecemos vínculos, aprendemos, sentimos, cuidamos de nós mesmos e escolhemos os próximos passos. O passado pode nos ensinar. O futuro pode nos inspirar. Mas somente o agora nos permite agir. Os verbos de ligação nos ajudam a refletir sobre isso.


Ser, estar, andar, ficar, parecer e permanecer fazem parte da experiência humana. Eles descrevem estados, condições e momentos da nossa existência. Mas existe um verbo que impulsiona a transformação: Continuar. Continuar apesar dos medos. Continuar apesar das perdas. Continuar mesmo quando os resultados ainda não apareceram. Continuar aprendendo, crescendo e ressignificando.


Porque não é apenas quem somos ou como estamos que define nossa trajetória. É o que fazemos com o que vivemos.


 Hoje é o único lugar onde a vida acontece. Ressignifique o ontem, sinta o agora e continue. Porque ser, estar, andar, ficar, parecer e permanecer são importantes, mas o que transforma é continuar.

Psicóloga Kátia Baptista Guerra

CRP 02/22746


Instagram:

@psikatiaguerra

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL




Acredito que cada pessoa carrega uma história única, e que compreender essa trajetória é essencial para entender seus sentimentos, dificuldades, recursos internos e potencialidades. Por isso, meu trabalho é pautado na promoção da saúde emocional e do desenvolvimento humano, integrando conhecimento científico, experiência clínica e um olhar acolhedor para cada indivíduo.


Minha atuação com crianças, adolescentes e famílias começou em 1991, inicialmente na área educacional e psicopedagógica. Ao longo dos anos, ampliei minha formação e experiência profissional, incorporando a Psicologia, a Neuropsicologia e as Neurociências à minha prática clínica. Essa construção permitiu desenvolver uma compreensão mais ampla dos aspectos emocionais, cognitivos, relacionais e desenvolvimentais que influenciam a saúde mental em diferentes etapas da vida.


Na clínica, trabalho principalmente com abordagens baseadas em evidências científicas, com destaque para a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Terapia do Esquema. Meu objetivo é compreender não apenas os sintomas apresentados, mas também as experiências emocionais, familiares e contextuais que contribuem para sua origem e manutenção, oferecendo um olhar integrado para o sofrimento humano.


Possuo formação em Terapia do Esquema pelo Grupo Wainer Psicologia, referência nacional na área, e possuo formação internacional em Terapia do Esquema para Crianças e Adolescentes (ST-CA) com o Dr. Christof Loose, psicoterapeuta alemão reconhecido internacionalmente por suas contribuições ao desenvolvimento desse modelo para o público infantojuvenil.


Sou mestranda em Intervenção Psicológica no Desenvolvimento e na Educação pela Universidad Europea del Atlántico, na Espanha. Minha pesquisa concentra-se na intervenção psicológica precoce no apego inseguro e sua relação com as psicopatologias da infância, integrando conhecimentos da Teoria do Apego, das Neurociências do Desenvolvimento, da Neurobiologia do Trauma e da Terapia do Esquema.


Minha trajetória profissional também inclui experiência em Psicologia Hospitalar Pediátrica, atuando junto a crianças, adolescentes e seus familiares em contextos de hospitalização e adoecimento em um hospital público de alta complexidade. Essa vivência ampliou minha compreensão sobre os impactos emocionais do sofrimento físico, das mudanças familiares e das experiências adversas ao longo do desenvolvimento.


Atualmente, meu principal campo de estudo e atuação clínica é o apego inseguro e suas repercussões na saúde mental. A partir da integração entre Teoria do Apego, Neurociências e Terapia do Esquema, busco compreender como as experiências relacionais precoces influenciam a regulação emocional, a construção da personalidade, os relacionamentos interpessoais e a vulnerabilidade ao sofrimento psicológico.


Ao longo da minha carreira, tenho me dedicado ao desenvolvimento de estratégias de prevenção e intervenção voltadas ao fortalecimento das necessidades emocionais básicas, à construção de vínculos mais seguros e à promoção da saúde emocional. Todo esse trabalho é conduzido com compromisso ético, fundamentação científica e profundo respeito pela singularidade de cada criança, adolescente, adulto e família que confia em meu trabalho.


Kátia Baptista Guerra

Psicóloga Clínica e Hospitalar ; Neuropsicóloga

CRP 02/22746

domingo

O Que São Esquemas Iniciais Desadaptativos? Uma Compreensão à Luz da Terapia do Esquema

 

Ao longo da minha prática clínica, observo que muitas pessoas chegam à psicoterapia acreditando que seus sentimentos, comportamentos ou dificuldades relacionais representam características permanentes da personalidade. Frequentemente, descrevem-se como “ansiosas”, “inseguras”, “difíceis de amar”, “fracassadas” ou “incapazes”. No entanto, quando aprofundamos a compreensão da história de vida, percebemos que essas experiências costumam estar relacionadas a padrões emocionais mais profundos, denominados Esquemas Iniciais Desadaptativos.


Na Terapia do Esquema, desenvolvida por Jeffrey Young, os esquemas são definidos como padrões amplos e duradouros compostos por memórias, emoções, cognições, sensações corporais e comportamentos que se desenvolvem ao longo da infância e adolescência e continuam influenciando a forma como a pessoa interpreta a si mesma, os outros e o mundo ao longo da vida (Young, Klosko, & Weishaar, 2008).


Esses esquemas não surgem de forma aleatória. Eles resultam da interação entre fatores temperamentais, características individuais e, principalmente, das experiências vividas nos contextos de apego e desenvolvimento. Quando necessidades emocionais básicas não são adequadamente atendidas, o indivíduo passa a construir interpretações sobre si mesmo e sobre os relacionamentos que podem permanecer ativas por muitos anos.


Do ponto de vista da Terapia do Esquema, todos os seres humanos possuem necessidades emocionais básicas universais. Entre elas estão a necessidade de vínculo seguro, afeto, proteção, aceitação, pertencimento, autonomia, competência, identidade, liberdade para expressar emoções e necessidades, limites realistas, autocontrole, espontaneidade e lazer (Young et al., 2008).


Quando essas necessidades são consistentemente atendidas, tendemos a desenvolver uma percepção mais integrada e segura de nós mesmos e das relações interpessoais. Entretanto, quando há negligência emocional, rejeição, instabilidade, críticas excessivas, superproteção, invalidação emocional ou ausência de limites adequados, podem surgir esquemas que passam a funcionar como filtros através dos quais interpretamos as experiências futuras.


É importante compreender que os esquemas não são apenas pensamentos negativos. Eles constituem estruturas emocionais profundas. Por essa razão, muitas vezes são vivenciados como verdades absolutas e não como interpretações da realidade. Uma pessoa com esquema de abandono, por exemplo, não apenas pensa que será abandonada; ela sente essa possibilidade como algo extremamente real. Da mesma forma, alguém com esquema de defectividade não apenas acredita ter defeitos; experimenta uma sensação persistente de inadequação e não merecimento.


Outro aspecto relevante é que os esquemas tendem a se perpetuar ao longo do tempo. Isso ocorre porque o indivíduo, frequentemente de maneira inconsciente, passa a interpretar os acontecimentos de forma coerente com suas crenças centrais. Assim, experiências que confirmam o esquema recebem maior atenção, enquanto evidências contrárias podem ser minimizadas ou ignoradas. Esse processo contribui para a manutenção do sofrimento emocional e dos padrões relacionais disfuncionais.


A Terapia do Esquema organiza os esquemas em cinco grandes domínios emocionais. O domínio da Desconexão e Rejeição está relacionado às experiências de falta de afeto, segurança, aceitação e pertencimento. O domínio da Autonomia e Desempenho Prejudicados refere-se às dificuldades relacionadas à independência, competência e senso de identidade. O domínio dos Limites Prejudicados envolve dificuldades associadas ao autocontrole e ao respeito aos limites interpessoais. O domínio do Direcionamento para o Outro relaciona-se à tendência de priorizar excessivamente as necessidades alheias em detrimento das próprias. Por fim, o domínio da Supervigilância e Inibição caracteriza-se por excesso de controle emocional, perfeccionismo, autocrítica e preocupação constante com erros e ameaças (Benedini et al., 2023; Young et al., 2008).


Embora os esquemas possam acompanhar uma pessoa por muitos anos, eles não representam uma sentença definitiva. Um dos princípios fundamentais da Terapia do Esquema é justamente a possibilidade de transformação. À medida que a pessoa desenvolve consciência sobre seus padrões emocionais, compreende suas origens e aprende novas formas de responder às próprias necessidades emocionais, torna-se possível construir experiências mais saudáveis e fortalecer o chamado Modo Adulto Saudável.


Compreender os esquemas representa muito mais do que identificar sintomas. Significa compreender a história emocional que está por trás deles. Quando reconhecemos a origem de determinados padrões de sofrimento, deixamos de interpretar nossas dificuldades como defeitos pessoais e passamos a entendê-las como respostas aprendidas diante de necessidades emocionais que, em algum momento da vida, não foram suficientemente atendidas.


A partir desse olhar, a mudança deixa de ser um processo baseado em culpa ou autocensura e passa a ser construída por meio de consciência, validação emocional, autocuidado e desenvolvimento de novos recursos internos. É nesse contexto que a psicoterapia possibilita não apenas a redução do sofrimento, mas também o fortalecimento da identidade, dos relacionamentos e da saúde emocional.


Referências


Benedini, J. B., Napoli, V. A., Prado, V., & Canuto, T. (2023). Agenda em terapia do esquema: meu guia de autoconhecimento. Novo Hamburgo, RS: Sinopsys Editora.


Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Porto Alegre, RS: Artmed.

Reconectando-se com Sua História: A Arte de Recomeçar, Voltando para Casa e Encontrando o Caminho de Volta

 


Reconectando-se com Sua História: A Arte de Recomeçar, Voltando para Casa e Encontrando o Caminho de Volta


Ao longo da vida, todos nós desenvolvemos formas de nos adaptar às experiências que vivemos. Algumas dessas adaptações foram fundamentais para nossa sobrevivência emocional, especialmente durante a infância, quando dependíamos do cuidado, da proteção e da validação das pessoas ao nosso redor. No entanto, nem todas as necessidades emocionais básicas foram plenamente atendidas. Muitas vezes, aprendemos a silenciar sentimentos, esconder vulnerabilidades, agradar para sermos aceitos ou assumir responsabilidades que não pertenciam a nós.


Na Terapia do Esquema, desenvolvida por Jeffrey Young (2008), compreende-se que experiências repetidas de frustração das necessidades emocionais básicas podem contribuir para a formação dos chamados Esquemas Iniciais Desadaptativos. Esses esquemas são padrões profundos de pensamento, emoção, memória e comportamento que influenciam a forma como percebemos a nós mesmos, os outros e o mundo.


Por trás de muitos desses esquemas existe uma criança que precisou encontrar maneiras de lidar com a dor emocional. Uma criança que, em algum momento, pode ter sentido medo, rejeição, abandono, inadequação, solidão ou falta de pertencimento. Embora o tempo passe, essas experiências nem sempre ficam no passado. Muitas vezes, continuam presentes nas escolhas que fazemos, nos relacionamentos que construímos e na forma como interpretamos os acontecimentos da vida.


Por essa razão, o processo terapêutico não consiste apenas em compreender racionalmente o que aconteceu. Ele envolve um reencontro com partes importantes da própria história. É um convite para olhar com mais gentileza para a criança interior que ainda habita dentro de cada um de nós.


Reconectar-se com a própria história não significa permanecer preso ao passado. Pelo contrário. Significa compreender de onde vieram determinados padrões emocionais para que eles não continuem conduzindo o presente de forma automática. Quando uma pessoa começa a identificar seus esquemas, ela passa a perceber que muitas de suas reações atuais podem ter sido construídas como tentativas de proteção diante de dores antigas.


Entre os esquemas frequentemente observados na prática clínica estão a Privação Emocional, quando a pessoa sente que suas necessidades afetivas não serão atendidas; a Defectividade, marcada pela sensação de ser inadequado ou insuficiente; a Subjugação, caracterizada pela tendência de colocar as necessidades dos outros acima das próprias; e o Autossacrifício, quando o cuidado excessivo com os demais ocorre em detrimento do autocuidado.


A boa notícia é que os esquemas não são sentenças permanentes. Eles podem ser compreendidos, flexibilizados e transformados. Esse processo exige coragem, pois frequentemente envolve entrar em contato com emoções antigas, memórias dolorosas e crenças profundamente enraizadas. No entanto, também abre espaço para novas possibilidades de viver.


Ao longo desse caminho, a autocompaixão torna-se uma habilidade fundamental. Aprender a acolher as próprias vulnerabilidades, reduzir a autocrítica excessiva e validar emoções são passos importantes para a construção de uma relação mais saudável consigo mesmo. Em vez de continuar reproduzindo antigas formas de julgamento e exigência, a pessoa começa a desenvolver uma postura interna mais acolhedora e protetora.


Esse processo também favorece a construção de novas escolhas. Dizer “não” quando necessário, expressar necessidades emocionais, estabelecer limites saudáveis e reconhecer os próprios desejos são movimentos que fortalecem a autonomia e a autenticidade. Aos poucos, a pessoa deixa de viver exclusivamente em função da aprovação externa e passa a construir uma vida mais alinhada com seus valores.


Outro aspecto importante desse reencontro é a possibilidade de ressignificação. Ressignificar não significa negar o que aconteceu, mas atribuir novos significados às experiências vividas. É compreender que os acontecimentos do passado contribuíram para a formação da identidade, mas não precisam determinar o futuro. A história permanece a mesma; o que muda é a forma como ela é compreendida.


Na Terapia do Esquema, o objetivo final não é eliminar completamente a dor humana, mas fortalecer aquilo que Young denominou de Modo Adulto Saudável. Esse modo representa a capacidade de cuidar das próprias necessidades emocionais de maneira equilibrada, estabelecer relações mais seguras, lidar com desafios de forma adaptativa e construir uma vida com mais propósito e significado.


Por isso, reconectar-se com a própria história é, em muitos aspectos, voltar para casa. É retornar a partes de si que foram esquecidas, silenciadas ou negligenciadas ao longo do caminho. É reconhecer feridas sem permitir que elas definam quem somos. É descobrir que existe dentro de nós não apenas a criança que sofreu, mas também o adulto capaz de acolhê-la.


Talvez o maior aprendizado dessa jornada seja compreender que transformação não acontece quando nos tornamos perfeitos. Ela acontece quando desenvolvemos coragem para olhar para dentro, acolher nossa humanidade e seguir em frente com mais consciência, responsabilidade e compaixão.


Afinal, não podemos mudar o início da nossa história. Mas podemos participar ativamente da construção dos próximos capítulos.


Referência


Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Porto Alegre: Artmed.

sexta-feira

Do Sintoma à História: Um Olhar Integrado pela Neurociência, Teoria do Apego e Terapia do Esquema.



Ao longo da minha trajetória profissional na educação, psicopedagogia, psicologia clínica, neuropsicologia e psicologia hospitalar, fui percebendo que compreender apenas o sintoma raramente era suficiente para compreender a pessoa. Em diferentes contextos clínicos, observava crianças, adolescentes e adultos apresentando ansiedade, tristeza, irritabilidade, dificuldades de aprendizagem, comportamentos desafiadores, sofrimento emocional ou dificuldades nos relacionamentos. Entretanto, quanto mais aprofundava a escuta clínica, mais percebia que por trás de cada sintoma existia uma história, uma trajetória de vida, um conjunto de experiências relacionais e emocionais que precisavam ser compreendidos.


Essa busca por um olhar mais amplo encontrei respaldo científico em diferentes áreas do conhecimento, especialmente na Teoria do Apego, nas Neurociências e na Terapia do Esquema. Essas abordagens, embora possuam origens distintas, convergem em um ponto fundamental: o desenvolvimento humano acontece dentro das relações, e os vínculos afetivos exercem papel decisivo na construção da saúde emocional ao longo da vida (Bowlby, 1981, 2015; Abreu, 2019; Mendes, 2021).


John Bowlby (1981) revolucionou a compreensão do desenvolvimento infantil ao propor que a necessidade de vínculo não é secundária nem derivada apenas da satisfação de necessidades fisiológicas. Para o autor, os seres humanos nascem biologicamente preparados para buscar proximidade, proteção e segurança junto às figuras cuidadoras. Posteriormente, suas pesquisas sobre os laços afetivos aprofundaram a compreensão acerca dos impactos da separação, da perda e das rupturas relacionais no desenvolvimento emocional (Bowlby, 2015).


A partir das contribuições de Bowlby e Mary Ainsworth, a Teoria do Apego passou a demonstrar que as experiências relacionais precoces influenciam significativamente a forma como a criança desenvolve suas estratégias de regulação emocional, sua percepção de segurança e suas expectativas em relação aos relacionamentos futuros (Abreu, 2019). Esses modelos internos de funcionamento tendem a acompanhar o indivíduo ao longo do desenvolvimento, influenciando relacionamentos familiares, amizades, vínculos amorosos e a própria relação consigo mesmo.


Dentro dessa perspectiva, compreendo que os sintomas raramente surgem de forma isolada. Muitas vezes, eles representam tentativas de adaptação diante de necessidades emocionais básicas que não foram suficientemente atendidas. É exatamente nesse ponto que a Terapia do Esquema oferece uma importante ampliação do olhar clínico. Ao considerar as necessidades emocionais fundamentais da infância,como segurança, conexão, autonomia, validação emocional, espontaneidade e limites saudáveis, a Terapia do Esquema permite compreender como experiências precoces podem contribuir para a construção de padrões emocionais e comportamentais que permanecem ativos ao longo da vida.


Essa compreensão também encontra apoio na obra de Patrícia Nolêto (2021), que destaca a importância de compreendermos as necessidades emocionais da criança sob a perspectiva da Teoria do Esquema. Em uma passagem particularmente sensível, a autora afirma:


“Informação e conhecimento não nos faz ter o controle de tudo e não nos garante que nunca mais vamos errar. Mas conhecer nos dá mais chances de acertar e nos ajuda a construir novos caminhos” (Nolêto, 2021, p. 19).


Essa reflexão possui profunda relevância para pais, cuidadores e profissionais. Compreender o desenvolvimento emocional não significa alcançar uma parentalidade perfeita ou eliminar completamente os desafios do desenvolvimento humano. Significa, sobretudo, desenvolver maior consciência sobre as necessidades emocionais da criança e sobre as formas pelas quais podemos construir relações mais seguras, sensíveis e protetivas.


As Neurociências reforçam ainda mais essa compreensão ao demonstrar que as experiências relacionais influenciam diretamente o desenvolvimento cerebral. Sue Gerhardt (2017) descreve como as interações afetivas precoces participam ativamente da construção das estruturas neurais responsáveis pela regulação emocional, pelo manejo do estresse e pela capacidade de estabelecer vínculos seguros. Sob essa perspectiva, o cérebro não se desenvolve isoladamente; ele se desenvolve dentro das relações.


Essa visão modifica profundamente a forma como compreendemos o sofrimento emocional. Muitas vezes, comportamentos considerados inadequados, desafiadores ou problemáticos podem ser entendidos como adaptações desenvolvidas diante de contextos de insegurança, imprevisibilidade ou sofrimento. A criança não reage apenas ao que acontece objetivamente ao seu redor, mas também à forma como seu sistema nervoso interpreta essas experiências.


Na prática clínica, essa compreensão é fundamental. Antes de perguntar apenas “qual é o sintoma?”, procuro compreender “qual é a história por trás desse sintoma?”. Antes de focar exclusivamente no comportamento observável, busco compreender os vínculos, as experiências emocionais, o contexto familiar, o funcionamento do sistema nervoso e as necessidades emocionais envolvidas.


Autores contemporâneos como Cristiano Nabuco de Abreu (2019), Marco Aurélio Mendes (2021) e Susan Johnson (2025) ampliaram significativamente essa compreensão ao demonstrarem que o apego permanece influenciando a vida emocional muito além da infância. Os vínculos afetivos continuam sendo organizadores centrais da experiência humana ao longo de todo o ciclo vital. A forma como buscamos proximidade, reagimos à rejeição, lidamos com conflitos, expressamos emoções e construímos intimidade está profundamente relacionada às experiências de apego vividas ao longo da vida.


Susan Johnson (2025), ao aplicar os princípios da Teoria do Apego à prática clínica por meio da Terapia Focada nas Emoções, destaca que a segurança emocional constitui uma das necessidades humanas mais fundamentais. Quando as relações oferecem previsibilidade, acolhimento e responsividade emocional, tornam-se importantes fontes de regulação emocional e desenvolvimento psicológico.


Essa perspectiva também fundamenta a importância da orientação parental. Muitas vezes, os pais chegam ao consultório procurando estratégias para modificar comportamentos específicos dos filhos. Entretanto, frequentemente o trabalho clínico exige um olhar mais amplo, voltado para a qualidade das interações familiares, para a comunicação emocional e para a construção de um ambiente relacional mais seguro. Não se trata apenas de corrigir comportamentos, mas de fortalecer vínculos.


É justamente nesse ponto que a integração entre Neurociência, Teoria do Apego e Terapia do Esquema se torna tão valiosa. Enquanto a Neurociência ajuda a compreender como experiências relacionais influenciam o desenvolvimento cerebral e a regulação emocional, a Teoria do Apego permite compreender a construção dos vínculos e dos modelos internos de relacionamento. A Terapia do Esquema, por sua vez, oferece ferramentas para identificar necessidades emocionais não atendidas, padrões de funcionamento e possibilidades de reparação emocional.


Assim, o sintoma deixa de ser visto apenas como um problema a ser eliminado e passa a ser compreendido como uma linguagem que comunica necessidades, histórias, experiências e tentativas de adaptação. Mais do que tratar sintomas, esse modelo de intervenção busca compreender a pessoa em sua integralidade, reconhecendo sua história, seus vínculos, seus recursos internos e suas potencialidades.


Acredito que compreender a história emocional de uma pessoa é fundamental para compreender seus sintomas, suas dificuldades, seus recursos internos e suas potencialidades. É por isso que minha atuação clínica procura integrar conhecimento científico, experiência clínica e cuidado humanizado, promovendo não apenas a redução do sofrimento, mas também a construção de segurança emocional, pertencimento, desenvolvimento saudável e novas possibilidades de vida.




Referências


Abreu, C. N. de. (2019). Teoria do apego: Fundamentos, pesquisas e implicações clínicas. Artesã Editora.


Bowlby, J. (1981). Cuidados maternos e saúde mental (M. Fry, Org.; V. L. B. de Souza & I. Rizzini, Trads.). Martins Fontes.


Bowlby, J. (2015). Formação e rompimento dos laços afetivos (A. Cabral, Trad.; 5. ed.). Martins Fontes.


Gerhardt, S. (2017). Por que o amor é importante: Como o afeto molda o cérebro do bebê (2. ed.). Artmed.


Johnson, S. M. (2025). Teoria do apego na prática: Terapia focada nas emoções com indivíduos, casais e famílias (D. Vieira, Trad.). Artmed.


Mendes, M. A. (2021). A clínica do apego: Fundamentos para uma psicoterapia afetiva, relacional e experiencial. Sinopsys Editora.


Nolêto, P. (2021). Filhos em construção: As necessidades da criança pela teoria do esquema. Literare Books International.


Anexos:



PUBLICAÇÃO:

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2024.v14n2-998

quarta-feira

O que é Apego Seguro?

 


Teoria do Apego: por que os vínculos importam tanto para a saúde emocional?

A Teoria do Apego surgiu a partir dos estudos do psiquiatra e psicanalista britânico John Bowlby, especialmente no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial. Ao observar crianças separadas de seus cuidadores, Bowlby percebeu que o sofrimento emocional decorrente dessas rupturas não poderia ser explicado apenas pela falta de alimento, higiene ou cuidados físicos. Suas pesquisas demonstraram que o ser humano nasce biologicamente preparado para buscar proximidade, proteção e segurança em figuras cuidadoras. Em 1951, a pedido da Organização Mundial da Saúde (OMS), Bowlby apresentou o relatório Maternal Care and Mental Health (Cuidados Maternos e Saúde Mental), no qual destacou a importância dos vínculos afetivos precoces para o desenvolvimento saudável da criança. Embora utilizasse a expressão “cuidados maternos”, refletindo o contexto histórico da época, atualmente compreendemos que a função protetiva pode ser exercida por qualquer cuidador responsivo e emocionalmente disponível.

Posteriormente, a psicóloga Mary Ainsworth ampliou esse conhecimento por meio de suas pesquisas observacionais e do procedimento conhecido como Situação Estranha. A partir desses estudos, foram identificados diferentes padrões de apego: o apego seguro, o apego inseguro evitativo e o apego inseguro ansioso (ou ambivalente). Décadas depois, Mary Main e Judith Solomon descreveram o apego desorganizado, caracterizado pela ausência de uma estratégia consistente de busca de segurança diante da figura de apego. Essas contribuições permitiram compreender que as experiências relacionais precoces influenciam profundamente a forma como a criança desenvolve sua percepção de si mesma, dos outros e do mundo.

Um dos grandes legados da Teoria do Apego foi demonstrar que o desenvolvimento infantil não depende apenas da sobrevivência física, mas também da qualidade das experiências emocionais vividas. Bowlby observou que crianças que recebiam acolhimento, proteção, proximidade e respostas consistentes às suas necessidades apresentavam melhores condições de saúde física e emocional. Em contrapartida, a privação afetiva, a ausência de responsividade e as rupturas prolongadas dos vínculos podiam gerar sofrimento significativo, mesmo quando os cuidados básicos estavam assegurados.

Essa compreensão dialoga diretamente com os conhecimentos atuais das Neurociências, da Psicologia do Desenvolvimento e da Terapia do Esquema. Nem todo sofrimento emocional está associado a experiências explícitas de violência. Muitas vezes, as marcas mais profundas surgem justamente daquilo que faltou: o acolhimento que não chegou, a validação emocional que não aconteceu, o olhar atento que não encontrou a criança em sua necessidade. Como destaca Gabor Maté, o trauma não está apenas relacionado ao que aconteceu, mas também ao que deveria ter acontecido e não aconteceu. A negligência emocional, a indiferença persistente e a ausência de conexão afetiva podem impactar profundamente o desenvolvimento humano.

Por isso, atualmente, fala-se cada vez mais em parentalidade positiva, promoção da saúde emocional e atendimento das necessidades emocionais básicas da infância. O apego seguro é reconhecido como um importante fator de proteção para o desenvolvimento humano, favorecendo regulação emocional, autoestima, relacionamentos saudáveis e maior capacidade de enfrentamento das adversidades. Investir em vínculos seguros, no direito de brincar, de ser cuidado e de se desenvolver em ambientes emocionalmente responsivos não é apenas uma questão de afeto: é uma estratégia fundamentada pela ciência para a promoção da saúde física, emocional e social ao longo de toda a vida.

Referências

Abreu, C. N. (2019). Teoria do apego: Fundamentos, pesquisas e implicações clínicas. Belo Horizonte, MG: Artesã Editora.

Bowlby, J. (1981). Cuidados maternos e saúde mental (V. L. B. Souza, Trad.). São Paulo, SP: Martins Fontes. (Obra original publicada em 1951).

Bowlby, J. (2015). Formação e rompimento dos laços afetivos (Á. Cabral, Trad., 5. ed.). São Paulo, SP: Martins Fontes. (Obra original publicada em 1979).

Gerhardt, S. (2017). Por que o amor é importante: Como o afeto molda o cérebro do bebê (M. Ritomy Ide, Trad., 2. ed.). Porto Alegre, RS: Artmed.

Maté, G., & Maté, D. (2023). O mito do normal: Trauma, doença e cura em uma cultura tóxica (F. Abreu, Trad.). Rio de Janeiro, RJ: Sextante.

Mendes, M. A. (2021). A clínica do apego: Fundamentos para uma psicoterapia afetiva, relacional e experiencial. Novo Hamburgo, RS: Sinopsys Editora.

Siegel, D. J., & Bryson, T. P. (2015). O cérebro da criança: 12 estratégias revolucionárias para nutrir a mente em desenvolvimento do seu filho e ajudar sua família a prosperar (C. Zanon, Trad.). São Paulo, SP: nVersos Editora.

sábado

Neurociência Aplicada às Vendas Farmacêuticas: Compreendendo o Comportamento Humano para Potencializar Resultados. Psicóloga Kátia Baptista Guerra / CRP 02/22746

Neurociência Aplicada às Vendas Farmacêuticas: Compreendendo o Comportamento Humano para Potencializar Resultados

Kátia Regina Neves Baptista Guerra
Psicóloga Clínica e Hospitalar | Neuropsicóloga | Pedagoga
Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, Terapia do Esquema e Neurociências



                                             Introdução

Vivemos uma era em que o conhecimento técnico já não é suficiente para garantir resultados sustentáveis nas organizações. O avanço das neurociências tem demonstrado que decisões de compra, fidelização de clientes, liderança, negociação e desempenho profissional estão profundamente relacionados ao funcionamento cerebral, às emoções e às experiências humanas.

Foi a partir dessa compreensão que surgiu a oportunidade de integrar minha experiência na Psicologia, Neurociência, Educação e Saúde à mentoria empresarial conduzida por Eduardo Neves Baptista, voltada para o desenvolvimento estratégico de farmácias e organizações do setor farmacêutico.

Essa parceria tem como objetivo levar às empresas uma compreensão mais profunda sobre como o cérebro humano influencia decisões, relacionamentos, comportamento de consumo e processos de vendas, transformando conhecimento científico em estratégias práticas para o crescimento organizacional.

O Que a Neurociência Revela Sobre as Decisões de Compra?

Durante muito tempo acreditou-se que as pessoas compravam exclusivamente por critérios racionais. Atualmente, estudos da neurociência demonstram que a maior parte das decisões ocorre inicialmente em sistemas cerebrais ligados à emoção, à memória e à sensação de segurança.

Autores como Daniel Siegel, Bruce Perry, Gabor Maté e Sue Gerhardt demonstram que o cérebro humano é fortemente influenciado por experiências emocionais, relações de confiança e percepções de segurança.

Quando um cliente entra em uma farmácia, ele não está buscando apenas um produto.

      • Segurança;
      • Confiança;
      • Acolhimento;
      • Solução para um problema;
      • Sensação de cuidado.

Em outras palavras, antes de comprar um medicamento, um suplemento ou um produto de saúde, o cérebro está avaliando o ambiente, as pessoas e a qualidade da interação.

A Neurociência da Confiança

A confiança é um dos elementos mais importantes para qualquer negócio.

Sob a perspectiva neurobiológica, confiança significa redução de ameaça.

Quando o cérebro percebe segurança:

      • Reduz a ativação do sistema de alerta;
      • Aumenta a receptividade às informações;
      • Facilita a tomada de decisão;
      • Amplia a capacidade de vínculo.

Em ambientes farmacêuticos isso é ainda mais relevante, pois muitos clientes chegam fragilizados física ou emocionalmente. A maneira como são recebidos pode influenciar diretamente sua experiência e fidelização.

O Cérebro Não Compra Produtos: Compra Significados

A neurociência contemporânea demonstra que os seres humanos atribuem significado emocional às experiências.

Uma farmácia pode vender medicamentos. Mas também pode vender:

      • Cuidado;
      • Proteção;
      • Bem-estar;
      • Confiança;
      • Qualidade de vida.

Quando equipes compreendem essa lógica, deixam de focar exclusivamente no produto e passam a compreender as necessidades humanas que existem por trás de cada compra.

A Teoria do Apego e o Relacionamento com Clientes

Embora tradicionalmente aplicada ao desenvolvimento infantil, a Teoria do Apego oferece importantes contribuições para o universo corporativo.

Os estudos iniciados por John Bowlby demonstram que seres humanos tendem a buscar figuras que transmitam previsibilidade, segurança e suporte.

Nas relações comerciais ocorre fenômeno semelhante.

Clientes retornam aos lugares onde:

      • Sentem-se respeitados;
      • São ouvidos;
      • Encontram previsibilidade;
      • Recebem orientação confiável.

Assim como crianças necessitam de uma base segura para explorar o mundo, consumidores buscam empresas que funcionem como referências confiáveis em suas jornadas de saúde e cuidado.

Neurociência, Liderança e Cultura Organizacional

Não existe experiência positiva do cliente sem uma equipe emocionalmente saudável.

Os estudos de Bruce Perry demonstram que pessoas submetidas a ambientes de ameaça constante tendem a operar em estados defensivos, reduzindo criatividade, flexibilidade cognitiva e capacidade de resolução de problemas.

Por outro lado, ambientes organizacionais que promovem segurança psicológica favorecem:

      • Engajamento;
      • Cooperação;
      • Inovação;
      • Aprendizagem;
      • Desempenho sustentável.

Liderar pessoas não significa apenas administrar tarefas. Significa compreender como o cérebro humano responde ao reconhecimento, pertencimento e valorização.

A Neurobiologia da Comunicação

A comunicação eficaz não acontece apenas pelas palavras.

O cérebro interpreta continuamente:

      • Tom de voz;
      • Expressão facial;
      • Linguagem corporal;
      • Postura;
      • Coerência emocional.

As contribuições da Teoria Polivagal, desenvolvida por Stephen Porges, mostram que sinais de acolhimento e conexão influenciam diretamente o estado fisiológico das pessoas.

Equipes treinadas para estabelecer conexões genuínas produzem interações mais eficazes e memoráveis.

A Ciência do Pertencimento nas Organizações

Uma das descobertas mais importantes das neurociências modernas é que o cérebro humano foi construído para a conexão.

Pertencimento não é apenas um conceito emocional. É uma necessidade biológica.

Quando colaboradores sentem-se pertencentes:

      • Aumenta o comprometimento;
      • Reduz o turnover;
      • Melhora a satisfação profissional;
      • Amplia a colaboração entre equipes.

Empresas que compreendem essa dinâmica constroem culturas organizacionais mais fortes e resilientes.

A Parceria com a Mentoria de Eduardo Neves Baptista

A parceria com a mentoria de Eduardo Neves Baptista, fundador da plataforma Central de Cotações e especialista em compras estratégicas B2B, representa a união entre gestão estratégica e ciência do comportamento humano.

Enquanto a mentoria oferece ferramentas para crescimento empresarial, controle do CMV, aumento da lucratividade, gestão de compras, posicionamento estratégico e desenvolvimento organizacional, a neurociência contribui para compreender o fator mais importante de qualquer negócio: as pessoas.

O propósito dessa colaboração é traduzir conhecimentos científicos robustos para a realidade das farmácias e empresas, promovendo equipes mais conscientes, líderes mais preparados e relações comerciais mais humanas e eficazes.

Considerações Finais

O futuro das organizações não dependerá apenas da tecnologia, dos indicadores financeiros ou dos sistemas de gestão.

Dependerá, sobretudo, da capacidade de compreender o ser humano.

A neurociência tem mostrado que vender, liderar, negociar e cuidar são atividades profundamente conectadas ao funcionamento cerebral e às necessidades emocionais das pessoas.

Quando empresas aprendem a integrar ciência, comportamento humano e estratégia, deixam de oferecer apenas produtos ou serviços.

Passam a construir experiências, relacionamentos e confiança.

E é justamente nessa convergência entre neurociência, psicologia e gestão que se encontra uma das maiores oportunidades de transformação para o setor farmacêutico contemporâneo.


Adolescentes Virtuais: Os Perigos da Navegação Sem Limites na Internet e o Papel da Família na Proteção Emocional dos Jovens

 Adolescentes Virtuais: Os Perigos da Navegação Sem Limites na Internet e o Papel da Família na Proteção Emocional dos Jovens


Kátia Regina Neves Baptista Guerra

Psicóloga Clínica e Hospitalar 

CRP 02/22746




No dia 31 de março de 2025, fui convidada pelo Diário de Pernambuco para contribuir com a reportagem “Adolescentes virtuais: os perigos da navegação sem limites na internet”, publicada após a repercussão da série Adolescência, da Netflix.

 A matéria abordou os desafios enfrentados pelas famílias diante da crescente influência das redes sociais sobre a saúde mental, o comportamento e o desenvolvimento emocional dos adolescentes.

A reportagem pode ser acessada em:

https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/vidaurbana/2025/03/adolescentes-virtuais-o-perigo-da-navegacao-sem-limites-na-internet.html

Falar sobre esse tema não representa apenas uma opinião profissional, mas a continuidade de uma trajetória construída ao longo de mais de vinte anos de trabalho com crianças, adolescentes e famílias. Minha atuação iniciou-se na área educacional, como professora e coordenadora escolar infantil, e posteriormente ampliou-se para a Psicologia Clínica e Hospitalar, com foco na infância, adolescência, trauma, apego e desenvolvimento emocional.

Atualmente, além da atuação clínica, desenvolvo pesquisas sobre intervenção precoce no apego inseguro e prevenção de psicopatologias na infância. Sou autora de trabalhos científicos voltados à saúde mental infantojuvenil, incluindo publicações na revista Residência Pediátrica sobre a intervenção psicológica em contextos hospitalares e a relação entre experiências emocionais precoces, apego inseguro e manifestações psicossomáticas em crianças e adolescentes.

Essa experiência clínica, hospitalar e acadêmica tem mostrado que a discussão sobre o uso das redes sociais não pode ser reduzida apenas ao número de horas diante das telas. A questão mais profunda envolve compreender quais necessidades emocionais os adolescentes estão tentando atender quando permanecem conectados durante grande parte do dia.

A adolescência é uma fase de intensas transformações biológicas, cognitivas, emocionais e sociais. Nesse período, o jovem procura construir sua identidade, desenvolver autonomia e encontrar seu lugar no mundo. O desejo de pertencimento torna-se uma necessidade central. Quando essa necessidade não encontra espaço suficiente em vínculos familiares, escolares e comunitários saudáveis, muitos adolescentes passam a buscar reconhecimento e validação principalmente nos ambientes virtuais.

As plataformas digitais oferecem recompensas rápidas e constantes. Curtidas, comentários e compartilhamentos funcionam como reforçadores imediatos que estimulam circuitos cerebrais relacionados à recompensa e ao prazer. Em um cérebro que ainda está em desenvolvimento, especialmente nas áreas responsáveis pelo controle de impulsos, planejamento e tomada de decisão, esses estímulos podem exercer forte influência sobre comportamentos, emoções e escolhas.

Na prática clínica, tenho observado adolescentes que chegam ao atendimento apresentando sofrimento relacionado à comparação excessiva, dificuldades de autoimagem, ansiedade, medo de rejeição, cyberbullying, isolamento social e dependência emocional da aprovação virtual. Frequentemente, o sofrimento não está apenas no conteúdo acessado, mas na ausência de espaços seguros para falar sobre suas emoções, dúvidas e conflitos.

Essas observações encontram respaldo em diferentes áreas do conhecimento. A Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby e aprofundada por Mary Ainsworth, demonstra que a qualidade dos vínculos estabelecidos na infância influencia diretamente a forma como crianças e adolescentes desenvolvem autoestima, confiança e capacidade de regulação emocional. Autores contemporâneos como Daniel Siegel, Sue Gerhardt, Bruce Perry, Bessel van der Kolk e Stephen Porges reforçam que a presença emocional dos cuidadores exerce papel fundamental na organização do sistema nervoso e na construção da resiliência psicológica.


Por essa razão, acredito que a principal proteção não está apenas nos filtros tecnológicos ou no monitoramento digital. A proteção mais consistente continua sendo a qualidade das relações humanas. Adolescentes que se sentem vistos, ouvidos, acolhidos e compreendidos dentro de casa tendem a desenvolver maior senso crítico, melhor capacidade de autorregulação e menor vulnerabilidade diante de influências nocivas.

A escola também ocupa posição estratégica nesse processo. O fortalecimento das habilidades socioemocionais, a prevenção ao bullying, a mediação de conflitos e a promoção de ambientes seguros são medidas fundamentais para proteger a saúde mental dos estudantes e fortalecer fatores de proteção ao longo do desenvolvimento.

Ao longo da minha atuação como psicóloga clínica e hospitalar, tenho defendido que a prevenção em saúde mental começa muito antes do aparecimento dos sintomas. Ela começa nos vínculos. Começa na escuta. Começa na presença emocional dos adultos responsáveis pelo cuidado.

Mais do que controlar telas, precisamos compreender o que os adolescentes procuram nelas. Mais do que fiscalizar comportamentos, precisamos construir relações de confiança. Mais do que limitar acessos, precisamos oferecer pertencimento, segurança emocional e conexão humana.

A internet continuará fazendo parte da vida das novas gerações. O desafio não é afastar os jovens desse universo, mas ajudá-los a navegar por ele com responsabilidade, equilíbrio e senso crítico. 

Quanto mais fortalecermos os vínculos familiares, escolares e comunitários, menores serão as chances de que crianças e adolescentes busquem no mundo virtual aquilo que deveria ser encontrado primeiro nas relações que sustentam seu desenvolvimento: acolhimento, proteção, amor e pertencimento.







Perfil

Jogo Bicho Zangados na Psicologia Clínica com uso estruturado com finalidades terapêuticas.

 O uso do jogo Bichos Zangados na Psicologia Infantil e Juvenil: contribuições da TCC, da Terapia do Esquema e da Neurociência A infância é ...